História do Jabaquara

Fotos, relatos e textos sobre Cidade Vargas e Jabaquara

Há 60 anos, educadora investia em um sonho…

Aos doze anos, Alice Kaise saía de Riga, capital da Letônia, rumo ao desconhecido. No início do século XX, várias guerras marcavam a Europa. Os países do Leste Europeu passaram por vários conflitos e transformações.

Nesse cenário, acompanhada da mãe, Kristina Kaise, que acabara de perder o marido na guerra, a menina embarcava em um navio, rumo ao Brasil. Idioma, costumes, cultura, religião, clima, tudo seria diferente dali em diante.

Alice vivia uma vida muito humilde com a mãe. Teve apenas formação básica escolar. Casou-se e formou uma bela família, mas sempre trabalhou em casa. Em 1935, aos 23 anos, teve a filha que mudaria a história da família.

Lucy Nieman

Bolsista do colégio São José, Lucy se encantou pela possibilidade de transformar vidas e ajudar pessoas por meio da educação. Ela sentia que sua própria história seria definida pela instrução que recebeu na instituição católica e, por isso, queria retribuir. “Meu sonho era educar crianças especiais”, relembra hoje, aos 82 anos.  “Naquela época, crianças especiais nem saíam de casa, passavam a vida praticamente recolhidas”, completou Lucy.

Moradora do Jabaquara, Cidade Vargas, Lucy começou a dar aula ainda muito jovem, aos 18 anos. O bairro ainda estava em formação. Muitas ruas sequer tinham iluminação ou pavimentação. As primeiras casas foram entregues apenas uma década antes, em 1943 e, até lá, só havia uma escola pública nas redondezas.

Em 1957, formou-se professora pelo Colégio São José, no então chamado curso “Normal”, que passou a ser chamado de “Magistério”, um ensino médio técnico para formação de professores. Naquele ano, Lucy já tinha uma turma de 18 alunos em um Externato do bairro.

A Professora decidiu sair do emprego e trabalhar de outra maneira. Para sua surpresa, os pais dos seus alunos foram procurá-la em casa, porque queriam que ela continuasse a dar aulas para seus filhos.

Sem sala de aula disponível, uma das mães de aluno, dona Olga, ofereceu um barracão em sua casa, na Rua Ressaca. Ali, sobre um cavalete, foi improvisada uma mesa. Aos poucos, a notícia se espalhou e o interesse cresceu. Em 1957, inspirada pela santa padroeira do bairro, a professora Lucy criava ainda em caráter experimental a Escola Nossa Senhora das Graças.

Entre os primeiros alunos, já havia duas crianças especiais, que não encontravam apoio ou não podiam se matricular em escolas públicas regulares. “Naquela época, o preconceito chegava a ponto dos pais acharem que uma criança com deficiência intelectual em sala atrapalharia o estudo do filho”.

Em pouco tempo, foi preciso alugar um imóvel na Rua Campo Bom para atender a procura dos pais. A família de Lucy passou então a colaborar: improvisaram mais salas, construíram carteiras para os alunos e, assim, uma Escola surgia. Oficialmente, em setembro de 1958, a Escola Nossa Senhora das Graças era registrada na Secretaria de Estado da Educação. Com 80 alunos de Educação Infantil e Ensino Fundamental, naquela época chamados de “Jardim da Infância” e Primária”.

Nesse período, a professora Lucy era também coordenadora, diretora, faxineira, entre outras funções necessárias na escola. “Minha mãe ajudou muito. Trazia almoço para mim, ajudava a manter a escola organizada”, relembra. A Professora também teve outra figura inicial muito importante: sua irmã adotiva, doze anos mais nova. Beth também era descendente de letões e foi parceira por anos a fio de Lucy. “Beth sempre me ajudou e infelizmente faleceu cedo, aos 50 anos, vítima de um câncer”, lembra a fundadora da escola.

Há vários aspectos incríveis na história da formação da Escola Nossa Senhora das Graças, no Jabaquara, Cidade Vargas. Impossível não dizer que a professora Lucy Nieman sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, uma educadora com alma, ao mesmo tempo, solidária e empreendedora.

Sonhava em combater o analfabetismo e garantir a inclusão de crianças com deficiências no processo educacional. Sempre soube, paralelamente, que esse sonho era harmônico com a proposta de valorizar a família, a construção da cidadania através de um projeto de escola com toda a seriedade de que uma empresa sólida necessita.

Casamento

A vida dela, naturalmente, também seguiu esse curso. Em 1964, casou-se com Hikmat Nieman, comerciante e também um homem dedicado à família e que sempre soube valorizar a importância da educação. São 54 anos, já, desse casamento.

Os filhos Jorge e Eliane foram inseridos nesse ambiente e cresceram entendendo a estreita relação entre o ensino formal de qualidade proporcionado por uma boa escola e a educação familiar recebida em casa. Viviam pela escola, quando crianças e jovens. Aos poucos, foram se encantando pelo ambiente, passaram a se dedicar também ao projeto empresarial e educacional da ENSG. Viram a escola crescer e se fortalecer, ganhar renome na comunidade.

Aos poucos, tornaram-se eles próprios parte dessa história – Jorge, na área administrativa, Eliane, carinhosamente conhecida por Lica, na área de coordenação pedagógica. Até hoje, ambos estão lá e, agora, já uma terceira geração se envolve e se dedica ao mesmo sonho que, 60 anos atrás, criou uma das escolas mais tradicionais da capital paulista.

 Novo ano letivo

A Escola Nossa Senhora das Graças iniciou suas atividades no último dia 01 de fevereiro de 2018, presenteando os alunos com um chaveiro com o selo que representa os 60 anos da Instituição.

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